“A busca da felicidade”
Por Sigmund Freud
Para Freud, o homem tem que acreditar em uma figura que velará por sua vida e lhe dará gratificações futuras por uma frustração atual. Diz também, que o homem comum só pode imaginar essa figura como algo ilimitadamente engrandecido, pois só assim ele poderá perdoá-lo pelo mal cometido e atender as suas necessidades. O autor julga essa atitude infantil e afirma que esse comportamento é adotado pela maioria da humanidade. Freud ainda nos relata que os homens, além de tomar essa atitude, a defendem veementemente sem ao menos perceber ou até saber o que estão defendendo, e mesmo sabendo que é uma atitude insustentável.
Freud, referindo-se a religião com a arte e a ciência, cita no texto essa frase ‘Wer Wissenschaft und Kunst besitzt, hat auch Religion; Wer jene beide nicht besitzt,
der habe Religion!’. Essa frase traça uma antítese sobre as maiores realizações do homem e a religião. Traduzindo quer significar que quem possui a ciência e a arte tem até mesmo a religião, e aqueles que não possuem nem a arte e nem a ciência, ainda possuem a religião. Pra Freud quer significar uma muleta. Segundo o autor, ‘a vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós’, de modo que temos nos apoiar em algo para podermos passar mais facilmente pela vida. Essas “muletas” se dividem em três grupos. Os derivativos poderosos, que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações substitutivas, que a diminuem; e substâncias tóxicas, que nos tornam insensíveis a ela. No entanto, não é simples perceber onde a religião se encontra entre essas divisões.
A questão do propósito da vida humana é levantada, e é apresentado que, mais uma vez, apenas a religião poderá resolver essa pergunta. Contudo, esse propósito se forma e desmorona no sistema religioso. Partiremos para outra questão. O que pedem os homens da vida e o que pretende nelas realizar? Freud responde essa pergunta com a felicidade. O homem está sempre querendo estar feliz e assim permanecer. E essa felicidade se resume em ausência de sofrimento e desprazer ou a experiência de intensos sentimentos de prazer.
Freud nos diz, que por fim, o que decide o propósito da vida é ‘simplesmente o programa do princípio do prazer’. Porém, esse programa de principio de prazer, está em desacordo com o mundo inteiro, seja macro ou micro. Restou-nos a dizer ‘que a intenção de que o homem seja ‘feliz’ não se acha incluída no plano da ‘Criação’. Ainda para Freud, o sentimento de felicidade é alcançado quando há a satisfação de necessidades represadas em alto grau, sendo por sua natureza, possíveis apenas por manifestações episódicas.
Sendo assim, as nossas possibilidades de felicidade são restringidas por nossa constituição. E a infelicidade é menos difícil de se experimentar. O autor defende que essa infelicidade provém de três direções, do nosso corpo decadente, do mundo exterior e o do nosso relacionamento com os outros homens. Ele defende ainda, que com tantas possibilidades de obter infelicidade, estamos acostumados a moderar nossas reivindicações de felicidade. E que, além disso, transformamos o fato de escaparmos de uma infelicidade em uma felicidade. Por isso estamos tão focados em escapar das do sofrimento que deixamos o principio de obter prazer, em segundo plano.
Vários métodos foram sido ensinados durante séculos para aproveitar nossos prazeres, porém isso significa colocar o gozo antes da cautela, gerando seu próprio castigo. Os outros métodos de fugir do desprazer variam de acordo com o problema. Neste caso, em questão de problemas com as outras pessoas, é mais comum o isolamento humano. Com o problema com o mundo externo, só podemos nos afastar dele para que nós possamos solucionar a tarefa. No entanto, Freud nos diz que há um caminho melhor: ‘o de tornar-se membro da comunidade humana e, com o auxílio de uma técnica orientada pela ciência, passar para o ataque à natureza e sujeitá-la à vontade humana’. É um trabalho de todos para o bem de todos. Contudo, para o autor, os métodos mais eficazes de evitar o sofrimento são os que buscam influencia no nosso próprio organismo. Como uma ultima análise, ele procura resumir que todo o sofrimento não passa apenas de sensações: ‘só existe na medida em que o sentimos, e só o sentimos como nosso organismo está regulado’. E o mais grosseiro, porém mais eficaz desses modos de evitar o sofrimento é a intoxicação. Devemos ‘a tais veículos não só a produção imediata de prazer, mas também um grau altamente desejado de independência do mundo externo, pois se sabe que, com o auxílio desses ‘amortecedores de preocupações’’. No entanto sabe-se que essas propriedades de intoxicastes podem causar danos perigosos ao nosso organismo.
Assim como a satisfação do instinto nos traz felicidade, o fato de nos decepcionarmos quando uma de nossas expectativas não nos é alcançada nos traz o sofrimento, faz com que tentamos muitas maneiras de controlarmos nossos instintos para, assim, mais uma vez transformamos o modo de não sofrimento em felicidade. Desde modo, controlando nossos instintos, não nos decepcionamos na não realização de nossa satisfação por simplesmente inibi-la. Entretanto o sentimento de felicidade obtido pela satisfação de um instinto que não foi inibido é por vezes maior que o que foi. Com isso, aqui o autor propõem, que a irresistibilidade dos instintos não domados e a atração pelo proibido encontra uma explicação econômica.
Outra técnica apresentada para afastar o sofrimento consiste na reorientação dos objetivos instintivos de modo que iludam a frustração do mundo externo. Aqui, a obtenção do prazer consiste em intensificá-la o suficiente a partir de produções próprias do psíquico ou intelectual. Porém, sua intensidade é pouca comparada à satisfação de instintos primários e secundários, e, ainda, esse é um tipo de satisfação aplicado aos poucos que tem a capacidade da criação. Por fim, não cria uma armadura impenetrável contra as armadilhas do destino e freqüentemente falha quando a fonte do sofrimento é o próprio corpo da pessoa. Se esse processo já nos mostra a intenção de buscar a satisfação em processos psíquicos internos, a região da imaginação nos afirma isto com mais veemência. Nele, a realidade é pouco presente e o que resta é a imaginação do sujeito que fantasia a sua felicidade através da mente. Aqui, Freud explica que a satisfação é obtida através de ilusões do prazer deixando de lado, temporariamente, o real.
O próximo processo, Freud considera o mais completo e energético. Neste, a realidade é tida como a única inimiga e a origem de todo o sofrimento, de maneira que propõe a felicidade através do rompimento com a realidade. Aqui há um rompimento com a realidade de modo a não tratar com ela, ou ainda criar uma realidade própria para si adequando a seus próprios desejos. No entanto, a realidade é forte demais e quem se aventura por este meio, torna-se um louco pela falta do real. Ainda assim, o autor afirma que todos nós aplicamos um pouco desde processo em nossas vidas, corrigindo algum aspecto do mundo que nos é insuportável e aplicado nossos desejos na realidade. Esse remodelamento da realidade em busca da proteção do sofrimento, ganha maior importância, quando é realizado em grupo. Aqui se encontra o caso das religiões.
Em outro processo a ser tratado, Freud explica daquele que faz do amor o centro de tudo, que busca toda a satisfação em amar e ser amado. Esse processo não se desprende da realidade, pelo contrário, prende-se a objetos desde mundo e obtém felicidade através de relacionamentos emocionais com eles. Entretanto, quando amamos, ficamos mais vulneráveis ao sofrimento do que em qualquer outro processo. Encontramos-nos desesperadamente infelizes quando perdemos o ser amado ou o seu amor.
É explicado ainda o processo em que a busca da felicidade é feita através da fruição da beleza. Neste caso, é pouca a proteção contra a ameaça do sofrimento, mas é bastante compensado quando a expectativa da beleza é alcançada, seja qual for à área. A ciência, embora tenha pesquisados os causadores da sensação do sentimento do belo, não pode fornecer a explicação da origem da beleza. A psicanálise também, porém defende a sua derivação do sentimento sexual, em que a definição de “beleza” e “atração” são, originalmente, atributos do objeto sexual.
Por fim, Freud faz algumas conclusões sobre a investigação. O homem é quem prioritariamente decide a sua busca pela felicidade. É ele quem decidirá e seguirá pelo aspecto positivo, a busca do prazer, ou o aspecto negativo, a fuga do desprazer. E é ainda o homem quem escolhe a sua forma de buscar satisfação adaptando-a aos seus desejos. Sendo, assim cada homem se adequará a uma forma de buscar a felicidade de acordo com seu estilo de vida. O êxito desse homem jamais é certo, pois independe de sua vontade apenas, e é completamente dependente do mundo alheio. O que valerá aqui é a sua capacidade psíquica de adequar sua função ao meio externo de modo a encontrar a melhor forma para explorá-lo a fim de satisfazer seu prazer pessoal.
Freud analisa que a religião se restringe a qualquer forma de adaptação individual e propõe igualmente a todos o seu próprio caminho para a aquisição da realidade e a proteção contra o sofrimento. Nas palavras de Freud ‘Sua técnica consiste em depreciar o valor da vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante – maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência. ’. Freud julga que por conseqüência dessa técnica, acaba por infantilizar o psicológico das pessoas, arrastando-as para um delírio de massa. No entanto, acaba apenas por poupar muitas pessoas da neurose individual. Existem muitos caminhos para a felicidade, mas nenhum deles é suficientemente eficaz e seguro, e mesmo a religião não mantém a sua promessa, e tudo o que sobra ao crente é a submissão incondicional.
Gabriela Kuhn
CRAV 2007
Outubro de 2008.