quinta-feira, 25 de setembro de 2008

1989

Próximo do meu aniversário, posto aqui, notas do ano que nasci.

1989

O ano de 1989 foi um ano de passagem. Tudo era passageiro, descartável. A moda, o papel do pirulito e até o governo. Abriu-se a passagem da liberdade. Os jovens, que já tinham começado a enxergar o que acontecia de verdade, a agir e a desalienar-se, porém agora, já estavam de olho em outras coisas. Estavam aproveitando a vida, porque “o amanhã era incerto”. Com isso, doenças passaram a se disseminar e Cazuza, nos mostrou com apenas uma imagem, as conseqüências dessas doenças. Afinal uma imagem vale mais do que mil palavras, e 1989 foi o ano das imagens.

Nossos atos eram importantes e o que fazíamos aqui tinha repercussão no outro lado do planeta. Isso tudo, porque o mundo passou a olhar para os lados e ver o que acontecia no vizinho. Já dependíamos um dos outros então começamos a cuidar um dos outros e a interferir um nos outros.

Foi um ano High Tech. Um ano do “ao vivo”. A comunicação foi facilitada e as pessoas já não pertenciam mais a sua cidade, mas sim ao mundo. Porque rompemos fronteiras. Porque já se podia saber o que acontecia no agora em todo o planeta.

Abrimos passagem, derrubamos um muro e criamos contatos.

O ano foi de grandes acontecimentos, e também de acontecimentos não tão visíveis assim, mas que tiveram repercussão. Foi um ano de passagem de uma guerra camuflada para uma guerra que marcou por imagens assustadoras. Uma guerra que ocorreu antes de 1989, deu fim ao comunismo no ano, e que, depois, chocou o mundo.

E 1989 têm o que a ver com isso? As duas guerras não foram nesse ano, mas foi em 1989 que o comunismo desmoronou junto com o muro. Com o apoio não declarado pelos Estados Unidos, o Afeganistão venceu a guerra. Porém os nossos amigos americanos não sabiam que estavam treinando algo que desmoronaria suas estruturas anos depois. O Afeganistão recebeu treinamento de guerra armas e suprimentos, mas e depois? Depois que seu país foi destruído, que estavam em ruínas? Eles já não tinham com quem contar depois. E um país que vence seu inimigo sem precisar sacrificar nenhum de seus soldados e passa por um 1989 heróico, acaba perdendo milhares de civis anos depois. Isso por serem incapazes de perceber o erro que fizeram investindo 1 bilhão de dólares em uma guerra e não investido nem 1% desse valor na reconstrução de seu campo de batalha contra a União Soviética.

A moda também é um exemplo de passagem. Moda essa que seguia as tendências que passavam na televisão. E passavam mesmo, pois a cada novela era uma versão nova de moda. A moda era só um reflexo do que acontecia com a sociedade. Uma sociedade de momentos passageiros. Momentos que aconteciam “aqui e agora” e passavam.

E a moda era do mundo, víamos tudo na televisão e copiávamos. Copiávamos bastante, porque tudo que era moda hoje passava, e talvez amanhã já fosse brega. Na verdade só copiávamos e consumíamos. Viramos um mundo globalizado e capitalista.

Na televisão produzíamos, mas também nos era vendido enlatados Americanos. Ah e os Americanos! Esse concerteza foi um ano americano. Mas eles já eram potência mesmo antes de 89. O que aconteceu é que agora nós o olhávamos com olhos não tão receptivos.

Em 1989 vimos o nosso primeiro regime democrático, e junto com ele, passamos por uma inflação absurda que ajudou a eleger um presidente que levou nossa economia a falência e atrasou o país em anos. Vimos nosso dinheiro se tornar passageiro. Hoje valia muito, mas amanhã não comprávamos nem o pirulito que voava.

Mas nós globalizamos, e tudo continuou passando.

Definitivamente 89 não foi um ano apenas. Foram 364 dias que enfrentaram conseqüências de anos anteriores e que geraram conseqüências nos anos que vieram. Passamos por uma transformação na sociedade, na política e na economia. Passamos a aproveitar, e passamos a cruzar o mundo. Passamos a nos comunicar e a exercer diplomacia. Passamos a viver em um mundo que está mudando constantemente e que nos espera a fazer alguma coisa por ele. Iniciamos nossa convivência, mas é uma pena que ainda não aprendemos a conviver.

Gabriela Kuhn

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