sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Noite Fria

Noite Fria
.
SANTIAGO foi esse o nome que a menina ao lado de Ana viu tatoado em suas costas. Elas estavam sentadas em uma dessas cadeiras de balanço estilo rústico, pintado de branco, Ana tinha uma doçura no olhar e estava prestando atenção no campo a frente dela, com o pensamento distante. O campo estava silencioso, o que não era muito difícil naquele vilarejo longe da cidade. O ar daquela noite estava macio, uma leve brisa passou pelo rosto de Ana e ela sentiu um cheiro delicioso de eucalipto, e pensou o quão estaria perfeita essa noite se ela tivesse ocorrido há anos atrás. A menina, também olhando para o campo, estava com os pensamentos, não na noite, mas naquele nome tão forte que estava marcado na pele tão delicada de Ana. Não podendo se conter a menina perguntou

- É seu namorado, Ana?
- Quem?- perguntou Ana
- O Santiago da sua tatuagem? – replicou a menina
- Ah sim – disse Ana compreendendo – Foi.
- E porque vocês terminaram? – perguntou a menina, curiosa.
- Nós não terminamos, ele morreu – disse Ana sem dar muita importância para a situação.
- Me desculpe Ana, eu não sabia, sinto muito – a menina estava totalmente sem jeito de olhar para Ana agora, apesar de querer.
- Oh tudo bem, não tem problema – disse Ana desinteressadamente.
Por um minuto elas permaneceram em silêncio, observando a noite quente de verão, quando a menina tomou coragem e perguntou:
- Do que ele morreu?
Ana, que até agora não estava prestando muita atenção na conversa, falou com uma voz baixa:
- Insuficiência respiratória. É que ele tinha um problema no coração.
Ela começou a relatar a história dos dois e a menina se ajeitou na cadeira confortavelmente para ouvir.
Ana tinha guardado a história para si durante anos e agora sentia que era a hora de contar, hora de reparti-la, não só com as pessoas que vivenciaram com ela, mas para todas as pessoas que mereciam ouvi-la, e aquela menina, tão curiosa, tão inocente, era uma das que mereciam ouvir.
A medida que ia contando a história a noite ia se tornado mais fria, mas nem Ana nem a menina pareciam sentir a mudança, tudo que Ana sentia agora era dor que, parecia, estava guardada em seu coração, assim como a história em sua cabeça. Ela se lembrava de todos os detalhes dos momentos que passou ao lado de Santiago.Contou como eles haviam se conhecido ainda crianças, quando ele foi morar do lado de sua casa, e como, na mesma, época brigaram. A briga dos dois pareceu a Ana um pouco tola agora, e ela olhou para as estrelas com os olhos marejados percebendo quanto tempo perdeu de passar junto dele se não tivessem brigado.
Ana, sentindo um aperto forte no coração e olhando para uma borboleta que, estranhamente, passeava a noite, contou que ela e Santiago estudaram todos os anos juntos, mas só na adolescência, no penúltimo ano do colegial, que eles se aproximaram, através de um trabalho de escola o qual seu professor tinha obrigado-os a fazerem juntos.
Foi com os olhos cheios de lágrimas, que Ana contou como eles começaram a namorar, ela deu um sorriso ao lembrar do dia em que ele se declarou a ela, todo enciumado porque um garoto do mesmo ano estava lhe paquerando. E foi com os mesmos olhos lacrimejantes que ela falou sobre a descoberta da doença, das crises e da morte inesperada de Santiago, num dia de chuva.
- Fiz a tatuagem depois da sua morte - Ana disse, havia um tom de honradez na sua voz – Foi uma homenagem, a única coisa que pude fazer por ele.
**
_________________________________________Gabriela Kuhn.

0 Comments: